A Árvore
O José costumava estudar com os amigos da faculdade naquele jardim. E costumava sentar-se, sozinho, junto a uma pedra enorme que lá existia. Gostava de falar para a pedra. Era bom para desabafar. Embora a pedra não o ouvisse, ele sentia que naquele jardim havia sempre alguém a observar. E a ouvir. Dizia-se que, séculos antes, um rapaz tinha perdido ali um anel. Esse anel era um presente que tinha para oferecer à sua amada. Triste com a perda, o rapaz ficou no jardim dia e noite, à procura dele. E, quando já tinha perdido a esperança, um velho apareceu-lhe e perguntou:
- O que procuras?
- Um anel, que tinha para pedir a minha amada em casamento…
- Perdeste-o aqui?
- Sim…
- Eu posso ajudar-te… Mas terá que haver uma espécie de acordo…
- Acordo?
- Sim. Eu sou o dono destes terrenos. Este jardim é meu. Tenho ali uma árvore muito rara, que precisa de cuidados especiais. E preciso de um jardineiro. Se aceitares a oferta de trabalho, não só serás bem pago, como colocarei de imeditato todos os meus criados à procura do teu anel. Concerteza irão encontrá-lo.
O rapaz aceitou. O anel foi encontrado pouco tempo depois. O rapaz ofereceu o anel à sua amada, casaram, e ali viveram muitos anos, sendo ele o responsável pelo jardim, durante o resto da sua vida. Reza a lenda, que o rapaz ficou tão grato, que mesmo depois de morrer, o seu espírito ali ficou, junto da tão preciosa árvore, e que daí em diante ajudou muitas pessoas a conhecerem grandes amores.
Diziam que aquele jardim tinha algo de místico. Diziam que conseguia juntar as pessoas. Nunca o Filipe acreditara nesse mito. Era uma estupidez, na sua opinião.
Um dia, dois anos antes, o Miguel perdera lá a carteira. Tinha algum dinheiro, mas o pior era a quantidade de documenbtos importantes que teria que recuperar. A Rita encontrou a carteira, e através do contacto que lá tinha, conseguiu chegar até ao Miguel, devolvendo-lhe os documentos que tanta falta lhe faziam. Tanto gostaram de falar um com o outro, que marcaram um encontro. E mais outro. Até que sairem juntos tornou-se um hábito. E com o tempo, acabaram por se entregar à paixão. Que durara, e se tornara mais forte, entretanto. O Miguel contava a história ao Filipe.
- Foi aqui que perdi a carteira. Carteira que a Rita encontrou. E foi por aí…
- Não me vais dizer que este jardim tem poderes… – disse o Filipe.
- Não, mas não deixa de ser curioso.
- Mera coincidência…
- Sim…
O telefone do Filipe tocou, entretanto. Enquanto que ele atendeu, o Miguel reparou numa mulher que passeava pelo jardim, com headphones, completamente abstraída do lugar onde passeava.
- O meu primo, a quem emprestei o carro, ligou-me… Está parado em plena via, o carro deixou de trabalhar… Levas-me lá? – perguntou o Filipe.
- Claro, anda daí…
Os dois saíram apressados. Tão apressados que o Filipe se esqueceu do jornal. O problema não seria grave, porém o jornal tinha, no seu interior, duas folhas importantes com os dados pessoais do Filipe, que ele tinha que entregar para uma entrevista de emprego. A mulher que ali passeava, reparou no jornal. Sentou-se um pouco, a descansar, e a folheá-lo. As duas folhas caíram. Pegou no telefone e ligou para o número do Filipe. Ainda nesse dia, a Sofia iria entregar as folhas…
Hoje o José, já com uma idade respeitável e muitos cabelos brancos, sentado num banco no qual tinha passado tantas horas ao longo da sua vida, sorriu e olhou a árvore enorme que se erguia à sua frente. “Tantas vezes ouvi esta lenda, nos meus tempos de estudante, e nunca quis acreditar. Mas tu pareces ter vontade prórpia…”