Wednesday, August 31, 2005

O Barco (2)

Engraçado. Cómico. Irónico. Surpreendente. Naquele que é um dos mais espantosos movimentos da história da Astrofísica, uma Estrela moveu-se contra todas as leis, e aproximou-se de um planeta. Agora que tenho os pés em terra firme, que respiro o ar aquecido pelas luzes da cidade, que não mais sinto o balanço das ondas do alto mar, a Estrela surge de novo. Mais do que por meu chamamento, pois esse nunca sairía por si próprio, mas por sua vontade. E agora? Esboço um sorriso. Um misto de alegria com espanto. Irónica esta vida. Agora que decidi deixar o alto mar, voltar ao porto seguro, tudo parece girar. Eu caminho atento pelos trilhos da vida. E sei que nunca devemos ignorar um sinal de Deus. Se o Criador nos lança uma pista, tudo o que temos de fazer é agradecer e usá-la. Decidido a abraçar a segurança da cidade, e a deixar os perigos de navegar em mar revolto, apenas fiz o que seria mais racional. Larguei o enorme saco de emoções reprimidas, de sentimentos escondidos, de mágoas e de pulsões. Abri o peito num movimento de expiração. Disse algumas palavras sentidas, pensadas, sentidas, amadas. Estou muito mais leve. A Estrela estará ali. Mas agora este mero caminhante da vida sorri às adversidades, mais forte e seguro dos passos que dá. Não esquecendo que ama, mas controlando as emoções, e vivendo cada momento ao máximo. Sorri camarada. A vitória vem perto. Já se ouvem os seus tambores. A Estela, essa, está lá. Se vai ficar ou sair, já não é problema teu. Abraçaste a vida. És rei. Vai em frente. Deus decidirá. Mas fizeste o mais certo. Soltaste o que sentes. Não mais é segredo. Agora espera. Uma brisa de coragem abraçou-te de forma avassaladora. Não mais te esconderás. És rei, vive com tudo. Ama como podes. 

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Saturday, August 27, 2005

O Barco

Hoje estou num barco. Numa noite fria. Numa noite triste. Ao longe brilham as luzes da cidade. Mas estou demasiado longe. Hoje sei que para contemplar aquela Estrela, me afastei da cidade. A maré começa a ser muito alta, as vagas fazem balançar o barco. Mas ainda está ali a Estrela. A minha Estrela. Não sei bem se quero continuar perto dela, se quero regressar à tranquilidade da cidade. Mas viver é isto mesmo. Passar pelo mau. Passar pelo triste. Mesmo que para isso tenhamos de nos afastar da cidade. Perder a segurança do porto que abandonámos. A Estrela está lá. Eu ainda não sei. Estou demasiado afastado da cidade. Muito longe da Estrela. No fundo o que sei é que, sozinho neste barco, estou longe de tudo. Mas ainda assim, sei que quero a Estrela. Mas longe. De longe. Sei que ela está ali. Estico os braços. Não consigo lá chegar. Está muito longe. A brisa parece aconselhar-me a regressar a casa. Não quero. Quero a Estrela. Mas estou longe. Muito longe. Não sei como lá chegar. Sei que para cá vir deixei a terra firme. O mar começa a ficar mais agitado. Sei que é um lugar onde não estou seguro. Mas a Estrela… Então decido. Não chego à Estrela. Está longe. Não sou capaz. Volto a terra. Estou de novo com os pés em terra firme. O coração, esse, está no alto mar. Não quis deixar a Estrela. Separei-me dele.    

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Tuesday, August 23, 2005

Bet and Lose

Todos temos sido nos últimos dias bombardeados com a expressão “Naming Rights”. Quer dizer mais ou menos “Direitos de nome”. A expressão surge associada à notícia da possível venda dos nomes dos estádios dos três maiores clubes portugueses. O Porto de pronto pôs de parte a hipótese, através do seu presidente. Já o Sporting e o Benfica disseram estar a negociar. Mais recentemente fomos brindados com o novo nome da nossa liga de futebol: Liga Betandwin.com. 

Devo dizer que a minha opinião se divide em duas partes. A realista e a utópica. Passemos ao lado realista. Todos sabemos que o estado das finanças dos clubes é muito mau, sendo por isso necessário dizer bem alto “Salvem os clubes!!!”. Se para tal for necessário vender tudo, até os nomes dos directores, treinadores e jogadores, façam-no. Vender os nomes de bancadas, portas ou até de uma academia de futebol parece-me razoável. O mesmo digo para a liga de futebol. Eles precisam de dinheiro. Seja a Galp Energia, a Betandwin.com, as salsichas Isidoro ou os melões Vítor Manuel.

Passando ao lado utópico da questão, não acham, amigos leitores, que vender um nome, seja ele qual for, é uma forma de prostituição? Venderiam o vosso nome por dinheiro? Não acham no mínimo triste que tenhamos que chegar a este ponto? Os casos tão falados do Arsenal ou do Bayern Munique dizem respeito a clubes que mudaram de estádio, sendo por isso quase inevitável mudar o nome, e que aproveitaram a opurtunidade. Mas o caso do “meu” Sporting é bem diferente.

Houve um dia um senhor, chamado José Holtreman Roquette, que pediu dinheiro ao avô para fazer um clube desportivo. O seu avô, o Visconde de Alvalade, acedeu ao pedido, e foi fundado o Sporting Clube de Portugal. É graças a essa criação, que o futebol hoje significa, para mim e para muitos outros, pura paixão. Não acham que o mínimo que se pode fazer para homenagear esse senhor é dar-lhe o nome do nosso estádio?

Bem sei que muitos de vocês me dirão que é a dura realidade a que chegou o futebol. Eu sei. Tem de ser. Mas pelo menos deixem-me dizer aqui que essa realidade deixa-me muito triste. Espero que nunca um jornalista da SportTv diga um dia: “Não perca, Sábado às 21:00, o Sporting Clube Espírito Santo - Sport Lisboa e Samsung.” Já estivemos muito mais longe…    

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