O Barco (2)
Engraçado. Cómico. Irónico. Surpreendente. Naquele que é um dos mais espantosos movimentos da história da Astrofísica, uma Estrela moveu-se contra todas as leis, e aproximou-se de um planeta. Agora que tenho os pés em terra firme, que respiro o ar aquecido pelas luzes da cidade, que não mais sinto o balanço das ondas do alto mar, a Estrela surge de novo. Mais do que por meu chamamento, pois esse nunca sairía por si próprio, mas por sua vontade. E agora? Esboço um sorriso. Um misto de alegria com espanto. Irónica esta vida. Agora que decidi deixar o alto mar, voltar ao porto seguro, tudo parece girar. Eu caminho atento pelos trilhos da vida. E sei que nunca devemos ignorar um sinal de Deus. Se o Criador nos lança uma pista, tudo o que temos de fazer é agradecer e usá-la. Decidido a abraçar a segurança da cidade, e a deixar os perigos de navegar em mar revolto, apenas fiz o que seria mais racional. Larguei o enorme saco de emoções reprimidas, de sentimentos escondidos, de mágoas e de pulsões. Abri o peito num movimento de expiração. Disse algumas palavras sentidas, pensadas, sentidas, amadas. Estou muito mais leve. A Estrela estará ali. Mas agora este mero caminhante da vida sorri às adversidades, mais forte e seguro dos passos que dá. Não esquecendo que ama, mas controlando as emoções, e vivendo cada momento ao máximo. Sorri camarada. A vitória vem perto. Já se ouvem os seus tambores. A Estela, essa, está lá. Se vai ficar ou sair, já não é problema teu. Abraçaste a vida. És rei. Vai em frente. Deus decidirá. Mas fizeste o mais certo. Soltaste o que sentes. Não mais é segredo. Agora espera. Uma brisa de coragem abraçou-te de forma avassaladora. Não mais te esconderás. És rei, vive com tudo. Ama como podes.