Genesis
A beleza da manhã é incomportável para tanto sono. Apesar de achar belo demais aquele espectáculo que a luz faz ao espreitar por detrás dos montes, sinto que o meu corpo está a queixar-se. Devia, certamente, ter-me deitado mais cedo. O banho. O primeiro passo do dia. Lá serão escoados as mágoas de uma noite de sono merecida. Ainda na memória vagos pedaços de um nome. Memória fragmentada, mas que aos poucos começa a fazer-se uma só. Tenho um sorriso irónico. Sei que estou agora afastado do perigo que me rodeava. Tenho vontade de escrever. Muito. Bem ou mal, falar ao Mundo. O banho começa a tornar-se longo. São horas de dizer “Bom Dia!” ao Mundo. Estou cansado. Muito cansado. Mas transporto uma leveza que é estranha. Porque a manhã anterior fora mais difícil. E porque a de amanhã será ainda menos difícil do que esta. Estou a começar aos poucos. Já não mais começo o dia com saldo energético negativo. Cada dia, um dia. Não mais aquele nome na cabeça. Não mais aquele sentimento de distância. Hoje posso dizer que não sei quem és. Nem te quero falar. Hoje sei que voltei à casa de partida. E recebi dois contos. Já é algum dinheiro. Talvez compre o Rossio. Talvez a Rua Augusta. Talvez compre antes um bom livro. Para saborear. Para viver. De novo.