Tuesday, October 25, 2005

Genesis

A beleza da manhã é incomportável para tanto sono. Apesar de achar belo demais aquele espectáculo que a luz faz ao espreitar por detrás dos montes, sinto que o meu corpo está a queixar-se. Devia, certamente, ter-me deitado mais cedo. O banho. O primeiro passo do dia. Lá serão escoados as mágoas de uma noite de sono merecida. Ainda na memória vagos pedaços de um nome. Memória fragmentada, mas que aos poucos começa a fazer-se uma só. Tenho um sorriso irónico. Sei que estou agora afastado do perigo que me rodeava. Tenho vontade de escrever. Muito. Bem ou mal, falar ao Mundo. O banho começa a tornar-se longo. São horas de dizer “Bom Dia!” ao Mundo. Estou cansado. Muito cansado. Mas transporto uma leveza que é estranha. Porque a manhã anterior fora mais difícil. E porque a de amanhã será ainda menos difícil do que esta. Estou a começar aos poucos. Já não mais começo o dia com saldo energético negativo. Cada dia, um dia. Não mais aquele nome na cabeça. Não mais aquele sentimento de distância. Hoje posso dizer que não sei quem és. Nem te quero falar. Hoje sei que voltei à casa de partida. E recebi dois contos. Já é algum dinheiro. Talvez compre o Rossio. Talvez a Rua Augusta. Talvez compre antes um bom livro. Para saborear. Para viver. De novo.

Posted by O Ácido at 22:41:03 | Permalink | Comments (5)

Thursday, October 20, 2005

Outra Dimensão

Num recanto do Espaço-Tempo há sossego. Podes lá tentar ir. Não consegues. Não largas as ideias terrenas que te percorrem. Não podes esperar muito mais tempo. O tempo de satélite que te permite estar ligado a esse recanto está quase a terminar. Três, dois, um. Acabou-se. E agora. Viras-te para onde? Pensa bem. Quantas vezes já estivese perdido nesta dimensão? E quantas vezes saíste? Estavas realmente perdido? Não sabes se haverá outra maneira de sair daí? Sabes, sei que sabes. Agora senta-te. Descansa. A tua viagem vai começar agora. Três, dois, um. Já está. Voa para longe. Voa até não mais poderes bater as asas. Pára apenas onde te sentires seguro. Não há lugares seguros. Vais voltar para trás? Não o faças… Sabes quem lá está. Sabes o que te espera. Julguei-te mais forte… Vá lá. Estás a ver? Afinal não era tão difícil. Agora abre a janela. Estás a ver? Estiveste todo este tempo no mesmo lugar. E julgavas-te perdido. Percebes agora porque é que te perguntei quantas vezes já aqui estiveste perdido? Porque estiveste sempre no mesmo lugar. Só mudou o que está à volta. A mim ninguém me tira da ideia que todos vivemos sentados num imenso sofá. A paisagem à nossa volta é que vai mudando com o tempo. Mas nunca devemos sair do sofá. Senão caímos no vazio…

Posted by O Ácido at 17:47:16 | Permalink | Comments (3)

Monday, October 17, 2005

O Menino Grande

Uma vez, um menino veio ter comigo na rua. Tinha um olhar meio assustado, um ar de traquina, um sorriso sincero, uma expressão de curiosidade. Perguntei-lhe o nome.

- Devias saber! - respondeu bem alto.

Fiquei espantado com tal reacção. Ele foi ao bolso e tirou uma folha de papel dobrada. Abriu-a e mostrou-me um desenho. Na verdade estava um pouco feio.

- Deves estar a pensar que está feio. Podes dizê-lo, se quiseres.

Eu sorri.

- Nada disso, só está com as linhas um pouco tortas…

“Safei-me”, pensei eu.

- Eu sei que não gostaste. Tu também não gostas dos teus desenhos?

Aí fiquei apreensivo. Que pergunta era aquela?

- Ora acaba lá o desenho. Esse Sol está incompleto. - sugeri.

- Eu sei. Não sei se estou triste ou contente. Por isso o Sol está a meio…

Como me era familiar aquela sensação so “limbo” sentimental… Ora contente, ora

triste. Dois palhaços num só.

- Põe um Sol bonito. Assim o desenho fica mais alegre. Pode ser que te anime também.

- Mas achas que um simples Sol me vai animar? Eu não sou assim tão infantil!

- Desculpa. Então deixa assim. Fica giro na mesma.

- Então??? Acabo, deixo assim… Decide-te.

- Faz como quiseres. O desenho é teu.

- Ainda bem que o dizes. Detesto que tentem mandar em mim. Eu faço isto como quiser.

Então, de repente, começou a desenhar o que faltava daquele Sol. E pôs-lhe um sorriso.

- Sabes desenhar? - perguntou.

- Nem por isso. - respondi.

- Eu também não. Mas desenho na mesma. Eu é que mando. Faz o Sol como te apetecer e quando te apetecer. Não interessa se os outros gostam ou não.

- Tens razão. E já agora, para quem é o desenho?

- Para ti. Vou assinar.

Escreveu J.D. Com a mão esquerda…

Acordo agitado. Olho para todos os lados. Tinha estado a sonhar. Comigo… 

Posted by O Ácido at 22:55:09 | Permalink | Comments (3)

Sunday, October 16, 2005

(Re)viver…

Ontem estive num jantar com ex-colegas da escola. O prefixo “ex” aplica-se à palavra “colegas”, mas não à palavra “amigos”. Foi bom poder estar com amigos de tão longa data, com pessoas com quem partilhei muitos dos momentos que posso considerar geniais, momentos em que me ri muito, e que, anos passados, ainda me fazem rir tanto. Sabem uma coisa? É bonito saber que, apesar de todas as mudanças que fomos sofrendo com a idade, ainda somos capazes de “voltar atrás”, de sermos apenas miúdos, crianças felizes e inocentes, sem quaisquer preocupações. Hoje as nossas vidas mudaram, temos mais responsabilidades, e com isso mais preocupações. Todos sabemos que o Mundo é um lugar tão complicado para ser feliz, mas na altura em que fizemos parte da mesma turma isso era passado para segundo plano. O que interessava era sorrir. E brincar. E jogar, conversar, dançar, rir, inventar, enfim, viver a sério… Hoje somos crescidos, e isso implica muitas mudanças, mas depois de ontem fiquei com uma certeza: apesar do Mundo, apesar das mudanças, apesar da distância, apesar de tudo, ainda somos capazes de rir da mesma forma. De forma sincera e inocente. Com vontade. Com alegria. Ontem fomos outra vez um grupo a sério. Há de repetir-se tão saudável experiência. Espero que ontem tenha existido no ar a sensação de “Até breve” e não de “Adeus”. E tenho mesmo que agradecer a todos vocês, sem os quais eu não seria este exemplar… Sou quem sou porque, nos anos em que me fui moldando, pude estar convosco. E sei que vos custou muito aturar-me, pois eu sou mesmo uma carraça (bonita imagem), que vos sugou parte do sangue com tanta frase parva. Mas mesmo assim, foram reservando algumas energias para me aturar. Para me ouvir. Para rir comigo, para rir por mim, para ouvir o que tinha para dizer. Tenho dito. Não termino, apenas paro. Este texto termina, mas não o que sinto. Nunca, em momento algum, um ponto final encerra tudo o que temos para dizer. Mas podemos tentar resumir. Aqui ficou uma tentativa. Agora falarei para mim mesmo. Porque se tiver tempo para me ouvir, terei tempo para vos falar. Porque enquanto sorrir, terei tempo para vos fazer sorrir. Porque enquanto vocês forem vocês, eu serei eu. E a memória não nos irá atraiçoar… Muito obrigado, amo-vos a todos. Agora tenho direito de parar de escrever. Vou chorar um pouco, se me permitem. Mas de contente.

Posted by O Ácido at 15:35:06 | Permalink | Comments (2)