Como fanático por futebol, vou começar a pôr neste blog algumas crónicas, se assim não se importarem que lhes chame, sobre futebol. Adoro uma boa conversa sobre futebol, e acho que umas crónicas aqui neste espaço destinadas a esse tema vão gerar imensos comentários, usufruindo assim da enorme interactividade e dinâmica que os blogs podem proporcionar. As crónicas irão receber o nome de “Posse de bola”.
Passando assim ao tema principal, quero falar um pouco sobre o título que o Porto garantiu em Penafiel. Reconheço todo o mérito ao novo campeão nacional. A época começou com grande esperança nas hostes portistas. A última época fora um autêntico pesadelo, com a dança de treinadores e de jogadores, tão invulgar para o lado do Dragão, a ter um efeito altamente nefasto para as aspirações da equipa da Invicta. Por outro lado, a pré-época trouxe esperança aos dragões. Um treinador altamente disciplinador, por vezes até autoritário, que parecia querer implementar um sistema de jogo que proporcionasse um futebol atractivo, com espectáculo e muitos golos. Começava a ser reconhecido por todos que o Porto iria ser um sério candidato a dominar o futebol luso, pois os jogos de preparação mostravam um Porto de qualidade. Porém, a época não se revelou assim tão risonha. Alguns resultados inesperados e algumas surpresas nos onzes apresentados faziam pairar sobre o Dragão a ideia de poder repetir-se a época passada. E a verdade é que Co Adriaanse teve alguns problemas em chegar a um onze-base. Fez algumas experiências que resultaram em fracassos, como colocar Hélder Postiga como nº 10 ou jogar sem médios defensivos, a nível de laterais teve também dificuldades, com a ausência de um lateral-esquerdo até à chegada de Marek Cech, ou ainda a total inoperância de Sonkaya, jogador que veio para o Porto com o seu aval, ou até na gestão do gigantesco problema que representou no Porto a sua decisão de “encostar” Jorge Costa. Os tempos de Adriaanse no Porto foram conturbados em grande parte da época, pois os adeptos não concordavam com as suas decisões. Para além disso, Adriaanse chegou mesmo a ser algo duro com os jogadores, ao ponto de ter praticamente culpado Raúl Meireles pelo desaire no Guiuseppe Meazza, ante o Inter de Milão. E logo num jogo em que Adriaanse teve muitas falhas no modo como geriu a equipa ao longo do jogo. O culminar da efeverscência foi atingido quando Co Adriaanse, num episódio lamentável, foi alvo de um ataque à sua viatura, à saída do centro de treinos do Olival. O facto de ter perdido os dois jogos com o Benfica também veio alimentar o desejo dos adeptos azuis-e-brancos em que o holandês fosse despedido.
A dada altura, surgiu um pouco a ideia, que eu partilhei e subscrevi, de que Co Adriaanse, um pouco como Ronald Koeman, não vinham trazer nada de novo ao futebol português. Mas hoje, a esta distância, reconheço que quanto ao treinador dos dragões, a ideia está completamente errada. Quando as coisas começaram a complicar mais para Co Adriaanse, o treinador resolveu ir à raíz das suas ideias, à base da sua filosofia, e trouxe para a sua equipa o tão holandês 3×4x3, que no caso do Porto resultou num 3×3x4. À partida, o comum adepto pensou que se até ali a situação não era famosa para o técnico holandês, então a jogar com três defesas o descalabro aproximar-se-ia sem demora. Mas aqui surgiu a grande cartada de Co Adriaanse. Começou por substituir Vítor Baía por Helton, claramente melhor a jogar com os pés, o que é fundamental neste sistema táctico. A troca até pode ter sido polémica, pois foi feita logo após uma exibição menos conseguida de Vítor Baía na Reboleira, o que não motivou a simpatia dos adeptos, mas o guarda-redes brasileiro esteve em grande nível até final da época.
Depois assentou o trio de defesas composto por Bosingwa, que é muito rápido, em Pepe, claramente a figura da defesa do Porto, um central que não inspirava grande confiança entre os adeptos, mas que revelou enorme segurança, pois mesmo quando cometia uma ou outra falha, a sua rapidez permitia que recuperasse rapidamente a posição, e ainda em Pedro Emanuel, central de grande capacidade de posicionamento, aqui usado como lateral-esquerdo.
Quanto ao meio-campo, Paulo Assunção foi também uma grande revelação. Um sentido táctico muito apurado, excelente posicionamento, grande capacidade de recuperação e muita certeza no passe, fizeram dele um pêndulo no meio-campo, um jogador-chave deste Porto. Lucho Gonzalez dispensa apresentações, é titular da selecção Argentina e é, na minha opinião, o melhor jogador a actuar no nosso país. Jogador de processos simples, muito eficiente na transposição defesa-ataque, bom também em tarefas defensivas, e, como se isso não bastasse, revelou ainda uma faceta goleadora. O outro médio é, na minha opinião, uma das grandes vitórias pessoais de Co Adriaanse. Raúl Meireles está, sem dúvida nenhuma, um jogador muito mais evoluído do que há um ano atrás, o que resulta do seu amadurecimento natural, mas também do trabalho que o técnico holandês terá desenvolvido no sentido de tornar o internacional sub-21 num jogador muito mais completo, e não aquele médio exclusivamente defensivo que deixou o Boavista rumo ao rival do Dragão. Vou ao ponto de afirmar que Raúl Meireles será um jogador a ter em conta num futuro próximo na selecção nacional, após o Mundial da Alemanha.
Relativamente ao ataque, quatro jogadores bem sobre a largura do ataque, o que não só é difícil para o adversário defender, mas para iniciar jogadas de ataque a partir da sua defesa. Aqui reside um dos pontos fundamentais deste 3×3x4. São apenas três defesas, ajudados por um médio mais recuado que encosta aos centrais na hora de defender, neste caso Paulo Assunção, mas a equipa compensa com muita pressão, exercida em zonas mais avançadas, e logo por quatro homens. Neste caso, Quaresma, indiscutível, talentoso, genial, enfim, muito resolveu ao Porto, mas muito tem que agradecer a Co Adriaanse por hoje ser o jogador que é. É, a par de Raúl Meireles, a outra grande “obra” do treinador holandês. Na outra faixa, Lisandro Lopez, Ivanildo ou Jorginho, e na frente McCarthy e Adriano. O brasileiro fez alguns golos, e o sul africano foi uma das razões pelas quais o Porto não garantiu este título mais cedo. McCarthy esteve “ausente”, andou não se sabe muito bem a fazer o quê, e com uma época normal, ao seu nível, o Porto teria passeado pelo Campeonato. Em suma, Co Adriaanse é um treinador polémico, não faz muitas vezes aquilo que se espera, mas deixou, no meu entender, marcas em dois pontos: trouxe pela primeira vez a este país o 3×4x3, que é talvez, como diz José Mourinho, a forma mais evoluída de se jogar futebol, e deu à nossa selecção duas novas alternativas, fruto do seu trabalho. São elas Ricardo Quaresma e Raúl Meireles. Parabéns ao Porto, parabéns a Co Adriaanse.