Já fiz alguns quilómetros de carro antes de vir para casa. Sozinho, ou se preferirem, acompanhado pelo álbum “X & Y” dos Coldplay. A rua deserta, uma noite agradável, o vidro aberto, a música a tocar. Posso dizer que tocou repetidamente a faixa 11, “Swallowed In The Sea”, que de resto considero absolutamente envolvente e particularmente tocante. Linda, digamos. Precisava mesmo de ouvir a voz interior. E ouvi. Porque tenho sentimentos distintos, ambíguos e paradoxais sobre mim mesmo. Porque passei parte da minha vida, até aos dias de hoje, a ser convencido pelos meus pais, irmãos, familiares, amigos, colegas da escola, professores e, mais recentemente, até pela minha psicóloga, de que sou uma pessoa diferente. Diferente porque, segundo esta malta toda, faço coisas que não estão ao alcance de todos. Seja por ter aprendido a ler antes de ir para a escola, por ter tido notas brilhantes ao longo da maior parte da minha vida escolar, por as pessoas acharem que tenho imenso jeito para a escrita, já desde as saudosas composições da escola, por ser um bom comunicador, por parecer, às vezes, um filósofo a falar (hoje mesmo um professor meu disse que eu podia ser descendente de Aristóteles…), ou mesmo por fazer as pessoas rirem com facilidade. Tenho rebatido essa ideia ao longo destes anos todos. Acontece que a influência das pessoas foi tanta ao longo desse tempo, que às vezes quase fico convencido disso. E sorrio, com vontade de conquistar o Mundo. Mas por vezes também acho que faço tudo mal. Que nada corre bem por minha culpa. Que não sei andar de bicicleta (e não sei mesmo…) e nunca vou aprender. Sinto que nunca vou ter uma vida como a das outras pessoas, que o meu caminho será muito mais curvado e turtuoso do que o dos outros. E aí já não sorrio. E já tenho medo do Mundo. No que será para mim um gigantesco desabafo, e para vocês uma atitude da mais pura sinceridade, tenho que partilhar convosco este mesmo lado. Ser o Acosta implica alegria de viver, energia (até de mais…) e vontade constante de brincar. E tenho mesmo isso tudo. Mas o que eu queria que vocês soubessem é que ser o Acosta também implica medo, angústia e tristeza. Também vou abaixo. Também sofro. Também não tenho vontade de brincar, por vezes. Também não me apetece estar com ninguém, por vezes. Também me apetece gritar bem alto. Como vocês todos. E espero, do fundo deste coração apertado, enquanto escrevo, que sejam compreensivos. Que me aturem. Mesmo sabendo o grau de dificuldade que isso implica. E espero que se lembrem de mim sempre como alguém que disse as palavras certas. Mais nada. E espero que estas estejam no mesmo caminho. As palavras certas. Diferente já sei que sou. O tempo dir-me-á se para melhor ou para pior. Apenas sei que vos amo a todos, e conto convosco. E quanto a ti, amo-te. Já o tinha dito? Hoje não…
P. S.: Já no computador, “Swallowed In The Sea” continuou a tocar repetidamente enquanto o texto foi escrito.