Milésimas
No meio de tanta derivada, de tanta aproximação linear, ou quadrática, de determinantes Hessianos ou de multiplicadores de Lagrange, paro uns minutos. Estou há tanto tempo no meio disto, da lógica, da certeza, da aproximação às milésimas. E pergunto onde fica a incerteza no meio disto tudo. Onde fica mesmo? Porque as ciências exactas têm o fascínio de podermos chegar exactamente ao número pretendido. Com o processo certo. Mas eu sou um amante da incerteza. Do caos, da confusão, da inconstância. Porque aqueles que um dia ousaram deixar de ser os alinhados pela norma, pela aproximação às milésimas, ganharam um lugar na imortalidade. Porque o rasgo surge precisamente no momento em que se largam aquelas milésimas do arredondamento. Porque o rasgo surge no instante em que se esquece a lei matemática que explica o acontecimento. E enquanto existirem homens e mulheres capazes de tirar os restantes da norma e do previsibilidade, talvez ainda haja espaço para acreditar em alguma coisa. Porque as grandas façanhas da Humanidade estão nos que fogem da linha. Dos que não são normais. Dos que escapam à cruel e limitadora vontade de seguir a norma. Dos que ousam gritar quando todos os mandam calar. Dos que não sentem vergonha de pensar de forma diferente. Dos que abrem o peito às balas da crítica estúpida e acéfala das bestas. Esses têm um futuro. Não no meio dos alinhados, mas sim no firmamento de ideias. Esses serão um dia imortais. E agora, volto para a lógica…