Sunday, June 18, 2006

Três lágrimas

O nevoeiro, sobre o mar, tornava aquela paisagem fria, estática, cinzenta. O horizonte perdia-se nos confins daquela massa de água. Ele não conseguia encontrá-lo. Por dentro, o vazio. Sentia a falta dela. Sabia que Ela não estava longe, mas isso pouco importava. Amava-a com tanta força que parecia desesperar. Aquela lágrima que deixou cair cortou-lhe o rosto por onde passou. Não mais sabia onde encontrar a mulher que amava. A lágrima, gelada, deixou-o imóvel. Perplexo com aquele estado de espírito. Em parte, sentia-se tremendamente desesperado, pela mágoa da ausência. Mas, por outro lado, sentia-se mais vivo do que alguma vez conseguira. Sabia que chorava daquela forma por amar na plenitude. Sabia que aquilo era, seguramente, o que o Homem decidira um dia chamar de “amor”. Sabia que Ela estava presente em cada pedaço do seu olhar, em cada suspiro que dava, em cada gesto que fazia. Sentia o rosto dela varrer-lhe a mente. Sabia que era com Ela que queria estar naquele momento. Naquela rocha, naquela praia. Sabia que talvez Ela não fosse aparecer. E outra lágrima percorreu o seu rosto. Mais um corte. Mais uma ferida. Não aguentava a sensação de a ter perto e não lhe chegar. Ela andava, certamente por ali. Mas Ele estava silenciado, na dor. Tentou encher o peito e gritar o nome dela bem alto. Mas não conseguiu. Mais uma lágrima desceu o seu rosto. Até que ganhou coragem. E gritou o nome dela. Bem alto. O som ecoou pelo espaço envolvente. O vento encarregou-se de levar aquele chamamento desesperado aos lugares mais distantes.

- Sim… - disse Ela.

Ele voltou-se. Ela estava ali, mesmo atrás dele. Há minutos. À espera do momento para o chamar. E Ele decidira qual o momento. Enquanto que Ele havia congelado, não conseguindo mover-se, Ela avançava para Ele com passos confiantes, decididos, determinados. Beijaram-se como se não houvesse mais nada à volta. Como se aquele mar imenso se fosse afastar para os deixar a sós. Como se as gaivotas fossem voar para longe deles. Como se a areia se movesse para outro lugar. O beijo durou o tempo suficiente para que o espaço se diluísse em redor deles. O beijo durou o tempo suficiente para o tempo se desvanecer nas mentes de cada um. O beijo durou tempo suficiente… Uma vida. Ainda hoje voltam àquela praia. De lá trazem um beijo. Uma memória. A mesma paixão.

Posted by O Ácido at 16:49:30
Comments

One Response to “Três lágrimas”

  1. just a girl says:

    Magnífico… :)

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