Thursday, July 6, 2006

Papel Rasgado

O Paulo caminhava pela rua. Perdera a conta aos cigarros que tinha fumado. No bolso da camisa tinha um papel rasgado. Nele um número de telefone. Nove algarismos. O modo de chegar onde queria. Mas não sabia bem como podia fazê-lo. Nem sabia muito bem se devia fazê-lo. Se queria fazê-lo. Não sabia que tempo faria naquele momento na Lituânia. Não sabia qual a situação política na Sérvia-Montenegro. Não sabia qual a notícia do dia na Islândia. Não sabia se isso era importante ou não. Seria, concerteza, para alguém. Sobretudo para alguém desses países. Para ele, apenas aquele papel. Aquele papel rasgado. Com um número de telefone. Que lhe trazia um rosto à memória. Que o fazia sentir quente, por dentro. Mas amargurado.

A Sofia estava numa esplanada. Lia “Assim falou Zaratustra”, de Nietzsche. Pensava naquele emaranhado de palavras como algo particularmente estimulante. Mas ligeiramente indecifrável, em algumas partes. Mas lia compulsivamente. Bebia uma água, sem gás, natural. Tinha um caderno pousado na mesa. Uma esferográfica por cima. Tirava notas do que lia. Escrevia pequenos raciocínios naquele caderno. Nele se registava parte do seu interior. Sofia estava um pouco mal-disposta. A noite anterior fora longa. Tinha saído com umas amigas, tinha bebido muito. O seu ar cansado não enganava ninguém. Não dormira mais do que três horas. Estava em jejum. O livro fora a sua única companhia desde as dez horas da manhã.

Um mês antes, o Paulo fora a uma festa de aniversário de um amigo. Conhecera Sofia. Ficara com ela toda a noite. Trocaram números de telefone. Saíram algumas vezes. Até que Paulo deixara de contactar Sofia. Sem que ela percebesse porquê. Estava há já uma semana sem dar notícias. E Sofia sentia saudades dele. Nunca ela lhe tinha ligado nesse período. Medo. Não sabia bem, ela, de quê. E o Paulo não ligara, também. Por medo. Sabia ele de quê. E bem. Mas o papel, rasgado, ainda conservava aquele número. Número que já ele tinha guardado. Mas nunca deitara o papel fora. Porque significava algo para ele. Paulo pensara em desistir, ao longo daquela semana. Tinha medo. De sofrer. De querer mais aquela mulher do que podia o seu coração aguentar. De não ter capacidade de segurar tão forte sentimento. De poder ter uma desilusão. De cair de novo na mais completa miséria interior. E ela não ligou. Provavelmente não estava interessada nele. Pelo menos tanto como o sentimento inverso, dele por ela. Sofia fechou o livro. Pegou no telefone. Lista de contactos, letra ‘P’. Ia ligar-lhe. O telefone dele, em casa, tocou várias vezes. Ninguém atendeu. Paulo caminhava, meio perdido. Tinha vontade de chorar. Sentia algo muito forte. E tanto medo ao mesmo tempo. Sofia levantou-se, pagou a água, e saiu. Andou imenso, pelas ruas cheias de gente. Cheias de gente, mas que a faziam sentir só. Irremediavelmente só. Passou por algumas montras. Não ligou. Viu um cão abandonado, a passear desinteressado. Não ligou. Passou por um homem muito mal vestido, com ar de campónio. Sorriu. Mas não ligou. Até que pegou no telefone. Ligou. Ninguém atendeu. Continuou a caminhar. As lágrimas não demoraram muito. Sentia saudades dele. Nunca pensou que ele fosse tão importante ao fim de tão pouco tempo. Paulo era divertido. Fazia Sofia sentir-se bem. Fazia-a rir. Tinha sempre algo a dizer. Sorria sempre para ela. Aquele sorriso. Aquela voz. Aquela companhia. Continuou a andar, agora ao ritmo das lágrimas, que lhe deixavam a marca no rosto. Do sofrimento que sentia. Queria gritar. Mas não tinha coragem de o fazer. Porque sabia que se começasse, não pararia. Continuou o percurso, até parar abruptamente. Era ele. O Paulo, sentado do outro lado da rua, numa escada, olhava um papel. Sofia como que gelou. E do gelo, rapidamente, passou ao oposto. O peito queimava de tanta ansiedade. Não hesitou. Atravessou a estrada e parou diante dele. Olhou o papel, rasgado, e reconheceu-o. 

- Esse número é meu… - disse ela, sorrindo.

- Pois…

- Estás à espera de quê?

- De saber se devia usá-lo.

- O número não digo, mas telefone…

- Ligaste-me?

- Sim. Desapareceste. Sem dar razão.

- Desc…

- Eu sei. Vais inventar um monte de coisas. Que eu não quero ouvir agora. Só me interessa saber, neste momento, se vais ficar aí sentado.

- Mas…

- Não te perguntei nada. Estou aqui. Senti a tua falta. Só quero ver o que vais fazer agora…

Paulo levantou-se. Beijou-a.

- E agora, vais voltar a sentar-te? - perguntou ela.

Paulo guardou o papel no bolso. Sentia vergonha. Demorou uma semana a perceber se devia ligar ou não. Mas apenas alguns segundos a perceber que tinha que a beijar.

- Nem mais uma palavra. - disse Paulo.

Pegou na mão de Sofia. Foram embora. De longe, de uma janela, um velho olhava-os. Com um sorriso.

Posted by O Ácido at 23:50:51
Comments

2 Responses to “Papel Rasgado”

  1. Diário do Gerês? Num tou a ber nada, num tou a ber nada…

  2. Just a Girl says:

    Cadê Ocê? :)

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